2 de abril de 2013

Terceiro Capítulo - Vem junto Deus!

Era um dia bem calmo, do lado de fora de Caio pelo menos. Ele havia sido rejeitado no quartel e tinha planos sérios a respeito se isso acontecesse. Iria sair de casa, se mudar pra cidade onde procuraria um emprego pra alavancar sua carreira como pianista, nem que começasse dando aulas. Sinceramente ele amava aquele cheiro de café recém coado de Dona Lurdes sua mãe e ia sentir falta disso. O cheiro já tinha lhe dado a disposição de por pra fora da cama seu corpo magro e catou a primeira camisa amarrotada no caminho e foi arrastando os pés descalços até a cozinha e abraçou apertado sua mãe gordinha de 1,52 cm de altura, lhe afagando os cabelos.
- O que houve Caio, meu peito tá seco!
- Nada! só estava com vontade de apertar, você sabe que a mulherzinha mais confortável que conheço. Hummmmm.
- Tá, que bom meu filho, senta aí que daqui a pouco seu pai chega com pão quentinho.
- Falou alguma coisa com ele mãe? - perguntou Caio com aqueles olhos nublados e meio verdes tentando amansar os cachos que só apareciam no cabelo extremamente liso quando acordava.
- Falei um pouco.
- E o que ele disse?
- Nada, né meu filho. Sacudiu os ombros e só. 
- Ele num é de falar, eu sei! Vai provavelmente fazer alguma coisa como se tivesse sido proposto e apoiado em sessão, sem ter ao menos perguntado minha opinião.
- Caio!
- Desculpa! Eu quero mais das coisas, mais da vida! Eu amo a senhora e tudo que aprendi até aqui, mas preciso de mais. Essa cidade é muito pequena pra quem sonha grande. Meus irmãos, desistiram muito rápido e muito cedo de sonhar com algo melhor pra própria vida. Pra mim não dá.
- Você é tão novo!
- Perante a sociedade já teria idade de manusear uma arma e se não tivesse sido rejeitado pelo exército seria sujeito-homi! Então, sim dona Lurdes eu vou voar do seu ninho mais cedo. Mas eu volto e volto sempre pra te cheirar e apertar.
Seu Paulo chegou e já sentou na mesa falando.
- Tá tudo certo, fui na rodoviária e lhe comprei as passagens, liguei ontem pro Claudinho assumir o teclado na igreja. Vai ser bom pra você sair mesmo debaixo da asa da sua mãe. Crescer e virar um cabra-macho. A passagem é pra depois de amanhã. Dá pra ajeitar tudo até lá?
Caio olhava pro pai perplexo, sem uma conversa, sem querer saber seus motivos, suas necessidades, um "vou sentir sua falta, filho", era só uma troca no ministério de louvor, não um filho saindo de casa. Ele respirou e antes de se levantar da mesa disse apenas.
- Bom dia, pai! E obrigado, não esperava menos do senhor! - disse Caio engasgado com a falta de proximidade do pai. Incrível que embora conhecesse bem seu pai, ainda tinha o alcance de perturbá-lo. 
Paulo era só um homem rude e prático, não era ausência de amor, era pura e simples falta de trato, não fora tratado e mal sabia como tratar. Homem simples, pastor de raízes profundas em evangelismo e cuidar de pessoas com misérias tão profundas que as vezes esquecia que não eram suas misérias e as absorvia tão completamente que mal via a vida que ganhava ou perdia no tempo e espaço das paredes de seu próprio lar.
Lurdes amava muito aqueles dois homens e sabia que esse romper era necessário para quem sabe num futuro próximo um laço mais forte fosse necessário. Ela não perderia um filho, ela o via mais livre, mais perto das verdades que ele nunca se cansou de buscar com aqueles olhos que duvidam até da própria íris que vezes era castanha e outras esverdiada, mas sempre brilhavam e irradiavam uma certeza absoluta que acalmava seu coração de mãe: Deus era TUDO e sem Ele, ele Caio não cria ser mais nada. 
Dois dias depois e 10 horas de viagem estava Caio descendo da estação rodoviária. Gente pra todo lado as mãos suavam, os prédios se agigantavam ainda mais quando ele se aproximava. Apertou com força a correia da mochila que trazia nas costas respirou fundo e orou.
"É agora que começa meu caminho dependência. É pela fé Deus, posso parecer cabra-macho, como disse Seu Paulo, mas sou só teu filho com todos meus conhecidos medos. Vem junto Deus!"

4 comentários:

Joice Lourenço disse...

Gostei do Caio... Curiosa para saber o que vai ser desse jovem do interior... Que continue a história!

Parabéns!!!

Rita Gomes disse...

Caio rumo à cidade grande, hum, o que será que o espera?

Gostei muito do personagem, parabéns!

Bem, aguadem... a próxima é a minha Mel. rsrsrs..

Vinícius Cannone disse...

Gostei dos diálogos e principalmente da narrativa que dá pra sentir bem o perfil do personagem Caio e de seus pais. Eu escrevo com menos narrativa e já me disseram que sou muito prolixo, o que prevaleceu em meus primeiros textos e que depois da crítica venho tentando controlar.

Vinícius Cannone disse...

Gostei dos diálogos e principalmente da narrativa que exprime bem o perfil do personagem Caio e de seus pais. Eu escrevo e já me disseram que sou muito prolixo, o que prevaleceu nos meus primeiros textos e que procurei corrigir nos outros. Espero alcançar um nível da narrativo tão bom quanto este. Aproveito para postar o link do início de um texto meu para que fique mais fácil acompanhar a sequência dos capítulos: http://viniciuscannone.blogspot.com/2009/10/vidas-separadas.html

 renata massa